RENOVAÇÃO NA POLÍTICA:
REPRESENTAÇÃO FEMININA E MANDATO COLETIVO

Refletir sobre o papel da mulher em nossa sociedade é um exercício necessário. O mundo mudou e as mulheres avançaram em suas conquistas. Antes restritas ao espaço privado – condição de uma sociedade machista e patriarcal – hoje, ocupam também o espaço público, anteriormente reservado exclusivamente aos homens. E falar em espaço público, inclui também o espaço político. Cada vez mais, as mulheres têm restabelecido posições de comando e poder. Na política eleitoral e partidária não deveria ser diferente.

No entanto, lamentavelmente, os percentuais desiguais entre homens e mulheres que ocupam cadeiras parlamentares colocam o Brasil em uma posição mundial muito desfavorável. Estamos na 152ª posição em um ranking de 190 países1, com apenas 10% das vagas na Câmara dos Deputados ocupadas por mulheres. Em escala local, essa desigualdade é reproduzida: apenas aproximadamente 14% da Câmara Municipal do Rio de Janeiro é ocupada por mulheres.2

Agora, mais do que nunca, somos convocadas, em todas as nações do mundo, a ocuparmos o espaço político. A presença feminina na política é fundamental na luta por direitos, principalmente em um contexto marcado pela exclusão, preconceito e violência contra as mulheres. A participação crescente de candidatas também é essencial para o fortalecimento da democracia. Já avançamos com a normatização do percentual mínimo de candidaturas femininas, mas normas não são suficientes na luta contra preconceitos estruturais. Queremos equilibrar a representatividade no poder legislativo, hoje ocupado majoritariamente por homens, retomando o nosso papel de decidir sobre pautas importantes, principalmente sobre aquelas que dizem respeito especificamente aos nossos direitos, encorajando e sensibilizando outras mulheres a participarem da política. Mulheres e cidadãos, de um modo geral, estão às margens dos processos políticos.

Além disso, sabemos que as verdades sobre a vida política brasileira também mudaram. Os últimos anos revelaram um ambiente caracterizado pela corrupção, dominação e preconceitos, antes velados em meio a uma vida cotidiana de passividade e aceitação por parte de uma parcela considerável da sociedade. Vivemos uma crise de representatividade na política brasileira. Mandatos parlamentares vem sendo utilizados para o alcance de interesses particulares. Assistimos ao enfraquecimento do modelo democrático por meio do aparelhamento de instituições públicas em prol dos interesses de seus gestores.

Superar esses desafios pressupõe também novas formas de atuação política. Consideramos as candidaturas coletivas uma inovação no processo de formulação de políticas públicas, servindo como uma alternativa para a efetiva representatividade da sociedade nos espaços políticos. O compartilhamento da tomada de decisão legislativa com outros representantes neutralizará a utilização do mandato para interesses particulares. Os posicionamentos políticos serão definidos por meio do diálogo entre os co-parlamentares que possuem diferentes experiências e conhecimentos. Pretendemos ser um verdadeiro elo entre a sociedade e o poder público.

Nossos desafios políticos tornaram-se ainda mais claros nestes tempos de pandemia em que não foram tomadas medidas eficazes para conter o avanço da doença. Ao contrário, nos deparamos com a ausência de transparência quanto aos dados da saúde pública e com políticas de afrouxamento do isolamento, contrárias aos estudos científicos e às orientações das organizações internacionais. Por outro lado, aplaudimos os países liderados por mulheres, que obtiveram os melhores resultados no controle da contaminação pelo vírus.

Queremos mais sensibilidade e transparência na atuação pública, criando e mantendo canais de diálogo que permitam à população fiscalizar, opinar e demandar soluções, contribuindo para a construção de um espaço político mais honesto e uma cidade mais justa. Não queremos mais viver esse modelo alicerçado no poder patriarcal, arcaico e autoritário, ditado de cima para baixo, que nos achata.

As Coletivas convidam a todas, sem exceção, donas de casa, profissionais de todas as áreas do conhecimento, mulheres de todas as idades, etnias e religiões, para essa tomada de consciência, encorajando cada uma a olhar para a possibilidade de participação na política. Precisamos arriscar esse caminho, com coragem, e encarar com mais tranquilidade esse lugar onde aumentamos nossa capacidade de influenciar e intervir por uma cidade e um país melhores para todos.

  1. Estudo realizado pelo Inter-Parliamentary Union. Para mais informações:  https://www.ipu.org/
  2. Fonte: http://www.camara.rj.gov.br/